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Corte dos
cascos nos Caprinos
Ana Isabel Matias Figueiredo Beijós
A natureza dotou os caprinos de cascos que crescem continuamente. Quando em liberdade, este facto pode ser uma grande vantagem, pois o desgaste natural que os cascos sofrem em contacto com terrenos duros, pedregosos ou áridos tem de alguma forma que ser compensado.
A criação de caprinos obriga ao seu confinamento, muitas vezes não havendo hipótese de deixar os animais saírem livremente, e mesmo assim, muitas vezes os terrenos macios dos pastos não são o suficiente para assegurar um desgaste que mantenha o casco em boas condições. Mesmo havendo condições para os animais andarem livremente, promovendo o desgaste natural dos cascos, estes devem ser aparados a cada 2 ou 3 meses, dependendo das condições de maneio, ambiente, nível de exercício e velocidade de crescimento. Não havendo estas condições, os animais devem ser vistos todos os meses, não deixando passar mais de 2 meses. Em caso de gestação adiantada, convém corrigir os cascos todos os meses.
O crescimento dos cascos é irregular e quando exagerado, dificulta a locomoção, e todas as actividades que exijam que o animal esteja de pé, tais como dificuldades de alimentação, quer no estábulo quer no prado, dificuldades na cobrição, dificuldades na gestação, que tendem a piorar para o fim desta, e ainda, desvio de prumos, o que pode levar a relaxamento irreversível.
Na imagem seguinte podemos observar uma deformação no aprumo devido ao crescimento excessivo do casco, que leva a que o animal não possa apoiar normalmente a pata no chão
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A B’ A’ B |
A – Pata com conformação adequada do casco, perfil da unha A’ - Posição correcta da base óssea B – Pata com crescimento excessivo do casco, perfil da unha B’ – Posição incorrecta da base óssea |
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Fig 1 – pormenor do apoio anormal devido ao crescimento excessivo do casco |
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O crescimento dos cascos torna-se ainda prejudicial pois a curvatura dos mesmos forma um depósito de detritos, humidade, fezes, matéria orgânica, que criam condições ideais para o desenvolvimento de microorganismos, que podem causar inflamações e afecções podais, nomeadamente a peeira.
Anatomia dos cascos
A pata dos caprino é constituída por duas unhas ou dedos, daí ser chamado de bisulco.
A pata pode ser dividida em parte externa e parte interna. Assim, a parte interna é constituída por 3 ossos unidos entre si por ligamentos e tendões, um aparelho elástico e de amortecimento de choques, e ainda um invólucro de carne. A parte externa forma o casco, que protege a parte interna.
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A 1 – coroa 2 – Taipa ou muralha 3 – Sola ou palma 4 – Bulbo ou Talão |
B 1 – Falange Proximal 2 – Falange medial 3 – Falange distal 4 – Sesamóides |
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Fig 2 – anatomia do casco (Vieira de Sá, 1990) |
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O aparelho elástico e de amortecimento de choques é composto por cartilagens e pela almofadinha plantar para cada unha. As cartilagens dispõem-se de um e outro lado do pé, unindo-se entre si pela frente, ficando livres na parte de trás, prolongando-se além do osso, completando-o.
A parte de cima da cartilagem fica fora do osso.
A almofadinha plantar é uma almofada de carne, elástica e resistente, colocada sob o osso do pé e do tendão flexor e entre as cartilagens e destina-se a amortecer os choques no andamento.
O invólucro de carne, compreende a carne do pé envolvendo as partes internas já mencionadas; a cutidura ou coroa, disposta à parte superior do pé, faz a transição do casco para a pele, constitui uma das partes mais importantes do pé, pois aí gera-se o tecido córneo que vai formar e renovar constantemente o casco.
O tecido folhoso segue-se à cutidura, descendo para a frente e pelo lado em torno do osso do pé e termina atrás virando-se para baixo introduzindo-se na almofadinha plantar; o tecido aveludado ou palma carnuda, sobre a parte inferior do osso do pé e a almofadinha plantar.
Todas estas partes internas, extremamente enervadas e irrigadas, são cobertas pelo chamado envolvedouro córneo, formando o casco.
Aparentemente formando uma só peça, o casco separa-se em três partes:
Taipa;
Palma;
Mole.
A taipa, parede, cinta ou muralha é a parte do casco visível do apoio. Á sua parede mediana chama-se entre unhas. Representa a peça principal do casco, muito sujeita a crescimento quando este não é acompanhado do desgaste correspondente. Cobre todo o tecido folhoso e cutidura, da qual nasce. A parte de trás dobra-se formando os talões ou mole.
A parte fronteira chama-se pinça, ponta de pé ou da unha; os lados, chamam-se ombros ou encontros, seguindo-se os quartos, entre os ombros e talões.
A taipa é direita, lisa, tendo maior espessura do lado de fora.
A palma é côncava na face inferior e mais para o meio e lado de dentro. A espessura da palma iguala a da taipa e ligam-se entre si pela linha branca.
O mole, que corresponde ao talão do cavalo (e a que se lhe pode também dar esse nome) tira o nome da macieza do corno da região, prende-se pela frente à palma e atrás com os lados da taipa. (Vieira de Sá, 1990)
Pela descrição apresentada, podemos confirmar a complexidade anatómica da pata dos caprinos, e o cuidado que é necessário ter para que este mecanismo se mantenha em perfeito funcionamento, aparando os cascos quando o desgaste natural não é suficiente.
Embora a operação de corte e desbaste não seja complicada, exige muito cuidado pois as lesões que possam surgir por atingir vasos sanguíneos ou nervos, além de dolorosas, são difíceis de tratar.
Convém separar animais eventualmente afectados pela peeira de animais sãos.
A operação pode ser realizada com o animal de pé ou deitado, em qualquer altura – estado de gestação, desde que não se sujeite a fêmea a choques ou quedas bruscas. O local deve ser bem iluminado, abrigado do sol, espaçoso e limpo
A imobilização do animal torna-se mais fácil se a operação for feita em pé, enquanto que a operação com o animal deitado requer meios de contenção mais complexos, tornando-se perigosa para as fêmeas em adiantado estado de gestação, e mais incómoda para o tratador.
A imobilização tem que ser feita de forma firme pois um movimento brusco do animal pode provocar um corte mais profundo, originando complicações (sangramento intenso, claudicação).

Fig 3 – Posição para corte dos cascos com o animal em pé (S Ribeiro, 1997)
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Fig 4 - Ferramentas a usar para o corte dos cascos (S Ribeiro, 1997) |
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O talhe dos cascos deve ser feito da forma ilustrada na figura, retirando tudo o que fique além do ponteado, tomando como orientação a linha de base 1 e que deve ser aproximadamente paralela à linha da coroa, e a linha 2 mais ou menos perpendicular à primeira. Esq. A Após estes cortes ficam 2 ângulos muito incisivos na pinça e nos talões, pelo que convém afagar com a lima ou com a própria navalha ou faca. Esq B O casco depois de afagado fica com o aspecto do Esq. C. O afagamento deve ser feito com cuidado de modo a evitar o esboroamento dos cascos pela agudeza dos ângulos. |
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Fig 5 – Talhe dos cascos (Vieira de Sá, 1990) |
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Para concluir a operação deve-se ainda proceder à limpeza e desbaste da palma, onde a matéria córnea também cresce.
Fig 6 – Limpeza e desbaste da palma (Vieira de Sá, 1990)
Caso hajam complicações, ocorrendo sangramento, deve-se comprimir o local até a hemorragia parar. Caso não seja suficiente, deve-se aquecer uma lâmina e cauterizar o local, colocando-se em seguida um repelente ou cicatrizante.
Para concluir, referimos que em caso da preparação dos animais para exposições se deve proceder ao corte dos cascos cerca de 15 dias antes da exposição, de forma a que o animal tenha tempo de recuperar de qualquer ferimento que possa ocorrer.
Bibliografia:
Resumos e Comunicações do II encontro de Ovinicultura da UTAD, 1999
VIEIRA DE SÁ,FERNANDO; A Cabra – Da Produção Do Leite À Protecção Da Natureza, Clássica Editora, Lisboa, 2ª edição, 1990
RIBEIRO, SÍLVIO DORIA DE ALMEIDA. Caprinicultura – Criação Racional de Caprinos, Livraria Nobel, Brasil, 1997