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I – APLICAÇÃO DO "BOLO RETICULAR" PARA IDENTIFICAÇÃO ELECTRÓNICA EM CAPRINOS E OVINOS

António Manuel Almeida Gomes

 

A aplicação do "bolo reticular" é feita com auxílio de aplicador apropriado, através da cavidade bocal, tendo o animal necessidade de deglutir o referido bolo, após a sua libertação pelo aplicador.

Esta acção pode originar uma expulsão do "bolo reticular" por parte do animal, já que a ingestão do "bolo reticular" difere significativamente da dos elementos que normalmente recolhe para sua alimentação (Figura 1).

 

Figura 1 – Bolo reticular.

 

Para a colocação deste tipo de identificação, é benéfica a contenção dos animais num espaço restrito (manga) de modo a que a sua mobilidade seja reduzida ao mínimo, tendo em atenção sempre o seu bem estar e o boa execução por parte do operador.

O manuseamento dos animais deverá pois processar-se com tranquilidade e com segurança, quer para o operador quer para os animais, evitando acções violentas que levem os animais a não colaborar.

Ao fazer a contenção da cabeça deverá providenciar-se no sentido de que a mesma se mantenha levantada, sem alteração significativa da sua posição normal bem como da curvatura do pescoço, relativamente à atitude natural do animal. Logo, é recomendável que no acto da introdução da cânula do aplicador na cavidade bocal não se permita que as narinas fiquem acima da linha média dos olhos e que a cabeça tenha oscilações bruscas quer lateral quer verticalmente. Porém, sempre que o animal mostrar intenção de estender o pescoço para melhor deglutir o "bolo reticular", deve-lhe ser permitido este movimento sem, no entanto, perder o controlo da contenção. Todavia, em eventuais casos de engasgamento, é exactamente nesta posição de pescoço estendido que o animal poderá expelir o "bolo" aplicado.

Não deverá colocar-se o "bolo reticular" em animais que se encontrem em decúbito (ventral ou lateral) pelo que nestas situações deve incentivar-se o animal a levantar-se.

Este tipo de identificação deverá ser colocado em animais saudáveis e não fatigados. Aos animais a que seja exigida deslocação até ao local de identificação, deve-lhes ser permitido um certo repouso, antes da aplicação do “bolo reticular”.

Após a contenção, introduzir-se-à a cânula do aplicador na cavidade bocal, lateralmente, através das comissuras labiais, na região do maxilar inferior desprovida de dentes, facilitando a operação (Figura 2).

 

Figura 2 – Aplicador.

 

O "bolo reticular" será então colocado sobre a língua, sensivelmente ao nível do terço posterior (região do "pós língua"). Deverá atender-se a que o comprimento da cabeça e do pescoço é variável entre espécies, entre raças e, entre animais jovens e adultos. Estas variações podem estar relacionadas com a maior ou menor facilidade com que os animais deglutem voluntariamente os elementos colocados na cavidade bocal. Assim torna-se necessário que o operador, na eventual ausência de aplicadores de diferentes comprimentos, tenha a percepção de que deverá ajustar a porção de cânula a introduzir na cavidade bocal, ao comprimento da cabeça, de modo a que a colocação do "bolo reticular" seja feita no local correcto e que a sua deglutição se processe voluntariamente.

Caso o processo de deglutição não seja voluntário pode acontecer que o "bolo reticular", em vez de seguir pelo esófago, o que é correcto, siga pela traqueia, podendo vir a comprometer a função respiratória.

O operador, no interior da área em que os animais estão contidos (manga), poderá deslocar-se abordando-os pela frente, ou lateralmente na região da escápula. Todavia, a abordagem lateral permite melhor imobilização da cabeça e pescoço, contribuindo assim para uma tarefa mais eficiente e segura.

Optando pela abordagem lateral, e sendo pessoa destra, o operador encostará a perna esquerda à escápula direita do animal. Abraçando o pescoço com o braço esquerdo, colocará a mão esquerda sob o maxilar inferior, sujeitando-o entre o dedo polegar e os restantes dedos, exercendo uma certa contenção da cabeça. Com a mão direita segura o aplicador, introduzindo-o na cavidade bocal, lateralmente, pelo lado direito do animal (Figura 3).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Figura 3 – Abordagem pela frente. Contenção da cabeça e introdução da cânula do aplicador na cavidade bocal, através das comissuras labiais.

 

Optando pela abordagem frontal, e tratando-se igualmente de uma pessoa destra, o operador colocará a mão esquerda por baixo do maxilar inferior, sujeitando-o entre o dedo polegar e os restantes dedos, conseguindo assim uma certa contenção da cabeça. Com a mão direita segura o aplicador introduzindo-o na cavidade bocal, lateralmente, pelo lado esquerdo do animal.

Para fazer passar a cânula do aplicador, do exterior para o interior da cavidade bocal, é recomendável que a introdução da mesma se faça através das comissuras labiais, na região do maxilar inferior desprovida de dentes (barra ou diastema), facilitando a operação (Figura 4).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Figura 4 – Abordagem lateral. Introdução do aplicador na cavidade bocal, lateralmente, através das comissuras labiais, ao nível da barra ou diastema. Contenção da cabeça e introdução da cânula do aplicador na cavidade bocal, através das comissuras labiais.

 

A sujeição do maxilar inferior deverá ser feita de forma firme mas de modo a não bloquear totalmente os seus movimentos a fim de não dificultar o acto voluntário de deglutir.

Quando se apercebe alguma dificuldade em deglutir deve-se ajudar o animal, ao desengasgamento com uma palmada firme na região da nuca, permitindo simultaneamente a extensão do pescoço.

Os procedimentos anteriormente descritos têm como fundamento básico o funcionamento das vias respiratório e digestiva o qual se ilustra de uma forma esquemática, nas figuras que se seguem. Os referidos esquemas permitirão igualmente elucidar acerca da técnica de aplicação, de modo a que o "bolo reticular" seja colocado no local apropriado e venha a percorrer o trajecto correcto, contribuindo para a ausência de situações críticas para o animal e para o operador, bem assim para a melhor viabilidade da intervenção.

As figuras 5,6,7 bem como as notas explicativas, permitem elucidar acerca do cuidado a ter na introdução da cânula e deposição do "bolo reticular" por forma a que este siga a via digestiva, através do esófago, e não a via respiratória, através da traqueia.

É indispensável que o material utilizado na aplicação dos “bolos reticulares”, seja lavado e desinfectado, antes de ser utilizado noutra exploração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Figura 5 – Normalmente a via respiratória está sempre aberta, estando a via digestiva encerrada. Assim, o ar inspirado através das narinas é conduzido através da traqueia, para os pulmões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Figura 6 – Situação de deglutição em que o véu palatino se eleva e a epiglote fecha a laringe, ficando o animal privado, por momentos, da utilização da via respiratória. Assim, os elementos sólidos ou líquidos colocados na cavidade bocal são conduzidos através do esófago para o retículo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Figura 7 – Cabeça do animal em posição natural, com o aplicador introduzido na cavidade bocal estando a extremidade anterior da cânula, sobre o terço posterior da língua ("pós língua").

 

 

II – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Federação das Associações Portuguesas de Ovinicultores e Caprinicultores, 1998. Identificação Electrónica Animal. OVINOS E CAPRINOS 9-10.