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Lurdes Figueiredo – lurdesfigueiredo@hotmail.com
Sara Bastos – bastossara@hotmail.pt
3.
Estratégias de Controlo de Mamite
A Mamite ou Mastite é a inflamação da glândula mamária causada por bactérias, normalmente dos géneros Staphylococcus, Streptococcus ou Actinomyces. Existem três formas clínicas da Mamite: a catarral, a apostematosa e a flegmonosa.
A Mamite Catarral é um processo inflamatório superficial que geralmente ocorre nas porções ventrais (cisternas, ductos e ácinos) sendo a secreção láctea aparentemente normal, mas com algumas alterações como grumos (precipitados de proteína e resíduos inflamatórios). Os grumos podem estar presentes no começo, meio ou fim da ordenha. Quando os grumos só aparecem no início da ordenha, o processo localiza-se em porções mais distais da glândula mamária. Quando apresenta grumos em toda ordenha, o processo é mais difundido.
As Mamites Catarrais podem ser agudas ou crónicas. Nas Mamites Catarrais Agudas, a glândula apresenta-se dolorida, quente, avermelhada, aumentada de volume e com sua produção de leite diminuída. O animal pode assumir posição antiálgica com os membros posteriores abduzidos. Podem surgir sinais sistémicos como febre, congestão de mucosas, anorexia e apatia.
A Mamite Apostematosa é um processo inflamatório profundo, atingindo todas as estruturas (tubulares, secretoras e intersticiais), havendo abundante produção de pus e formação de abcessos. Pode evoluir de uma Mamite Catarral e conta com a participação de bactérias piogénicas (p.ex. Actinomyces pyogenes). A glândula mamária apresenta alterações à inspecção, a qual pode apresentar-se, variando com o quadro, hipertrofiada, atrofiada e com pontos de supurações. À palpação nota-se endurecimento difuso ou circunscrito. O leite torna-se radicalmente alterado e transformado em pus. A colecção purulenta formada pode obstruir a passagem da secreção levando à agaláxia e, às vezes, à supuração pela pele do úbere. Quando se obtém a cura local, a glândula nunca recupera a capacidade de produção leiteira.
A Mamite Flegmonosa é um processo inflamatório grave e difuso. Atinge todos os tecidos da glândula mamária (inclusive o intersticial). Quando causada pela Escherichia coli o quadro que se instala é desencadeado pela toxina da bactéria. O Staphylococcus spp e Clostridium spp determinam distúrbios circulatórios locais. A glândula mamária afectada apresenta sinais de processo inflamatório intenso com muita sensibilidade. O quadro pode evoluir para cianose, com esfriamento da região e gangrena (quadro comum em pequenos ruminantes). Ocorre diminuição brutal da produção e o leite perde as suas características rapidamente (em aproximadamente 18 horas) adquirindo flocos e aspecto de soro lácteo ou soro sanguinolento.
A Mamite em ovinos é um factor importante de perdas económicas na criação, podendo ser responsável pela morte de cordeiros por inanição, descarte precoce de ovelhas e, ocasionalmente, morte de ovelhas. Tem distribuição mundial, com incidência principalmente nas raças com aptidão leiteira, porém, recentemente, descreve-se que a mesma pode ter efeitos sobre o ganho de peso e a sobrevivência dos cordeiros também em raças de carne, aumentando o interesse pelo problema.
Nos ovinos, a Mamite é usualmente classificada da mesma forma que nos bovinos, ou seja:
Mamite Sub-clínica: o leite tem aspecto normal e não há sintoma visível de inflamação do úbere, caracterizando-se por diminuição da produção leiteira e por aumento do número de células somáticas no leite.
Mamite Aguda: os sinais clínicos incluem edema e dor nos quartos mamários, febre, inapetência, desidratação, depressão e decúbito, podendo ocorrer inclusive a morte da ovelha. Uma das principais características da Mamite Clínica é o leite visivelmente anormal, com presença de grumos, coágulos ou pus. Caracteriza-se por aumento de volume (inchaço=edema) e sensibilidade (dor) da glândula mamária, sendo que a inflamação geralmente é unilateral. Os primeiros sintomas são falta de apetite, claudicação (evita mover o membro do lado afectado) – a claudicação é o primeiro sintoma observado – importante e usado para separar os animais acometidos do grupo, a ovelha impede que o cordeiro mame e apresenta-se em decúbito. Inicialmente, a pele do úbere apresenta-se avermelhada. Se houver progressão para a forma gangrenosa, que é comum em ovelhas, a pele torna-se azulada ou escura (negra), devido à necrose. A apresentação super aguda ou gangrenosa ocorre, normalmente, no pós-parto recente.
Mamite Crónica: podem observar-se nódulos e abcessos no parênquima mamário e úberes aumentados e endurecidos (fibrose). A Mamite Crónica é geralmente consequência de Mamite Aguda ocorrida durante a lactação, mas que não foi detectada.
A ocorrência de Mamite é favorecida pela presença de lesões no úbere.
Embora a Mamite possa ocorrer em qualquer momento da lactação, é mais frequente ao redor da terceira e quarta semanas após o parto. Isto possivelmente ocorre em sintonia com o pico de produção de leite. A infecção quando ocorre no período pós-desmame é provavelmente o reflexo de uma infecção durante a lactação que não foi detectada.
A ocorrência de surtos pela P. haemolytica em ovelhas, quando criadas no pasto, pode estar relacionado com o hábito dos ovinos dormirem, à noite, directamente no chão, é possível que a transmissão ocorra pelo contacto com a cama ou terra contaminada.
A falta de higiene e de cuidados na ordenha, as contusões de vária ordem, as camas em mau estado, os arranhões, picadas por matos grosseiros ou espinhosos durante o pastoreio, além dos agentes bacterianos específicos, são causas provocadas ou predisponentes das Mamites.
O diagnóstico das formas aguda e crónica é realizado considerando-se os sinais clínicos, observando-se um aumento de volume da glândula mamária. Quando se faz a palpação observa-se o aumento da temperatura e dor no local, no caso de Mamite gangrenosa o úbere apresenta-se com coloração azulada, bem como edematoso.
Pode-se, ainda, realizar o antibiograma para determinar o antibiótico de eleição para o tratamento. A amostra de leite para cultivo deve ser colhida assepticamente, em frascos esterilizados, após prévia higiene e desinfecção do óstio do teto com álcool a 70%.
A terapêutica via sistémica ou local utilizada em ovinos, fundamenta-se em informações disponíveis a partir dos trabalhos realizados em bovinos. Deve-se aplicar antibióticos de amplo espectro ou sulfonamidas, tão logo sejam observados os sinais clínicos.
O tratamento da Mamite Sub-clínica em ovinos não é recomendado, devido ao baixo sucesso alcançado.
Na Mamite Aguda, o objectivo do tratamento é salvar a vida da ovelha, pois o úbere afectado provavelmente estará perdido em termos de produtividade. Recomenda-se o uso de antibióticos de amplo espectro de acção, pela via intramuscular ou endovenosa.
O tratamento de ovelhas secas tem sido recomendado por alguns autores como forma de eliminar infecções sub-clínicas.
É importante lembrar que animais que sobrevivem após o tratamento, normalmente apresentam perda total ou parcial da função da glândula.
A seguir são apresentadas algumas medidas preventivas que podem ser utilizadas para o controle da Mamite em ovinos.
Quando a finalidade da exploração é a produção de leite, as mesmas medidas higiénico-sanitárias que são recomendadas para bovinos podem ser aplicadas para os ovinos, ou seja, praticar uma ordenha higiénica.
Em situação oposta, quando o cordeiro mama na ovelha durante 60 a 120 dias, o controle é dificultado pela possibilidade da transmissão de agentes patogénicos pela boca do cordeiro. Assim, deve-se evitar lesões traumáticas no úbere e/ou tetos das ovelhas, para não predispor a contaminação por patógeno presente na boca do cordeiro, bem como no ambiente.
Em rebanhos com história de Mamite grave, pode-se recomendar a aplicação de antimastíticos no desmame.
Deve-se impedir a estase láctea ocasionada pela perda de cordeiros ou por ovelhas com alta produção de leite após o desmame, restringindo água e alimento até cessar a produção de leite.
A palpação rotineira dos úberes e descarte de ovelhas com evidência de alterações cicatriciais ou fibróticas do úbere, permitem remover ovelhas menos produtivas e reduz o reservatório do rebanho, ou seja, possível fonte de infecção.
Recomenda-se ainda, como medida de controlo de surtos de Mamite em ovinos, o uso da vacina autógena, a partir do isolamento e identificação do agente causal, principalmente quando se tratar de Pasteurella haemolytica e Staphylococcus aureus.
O nível de Mamite de um rebanho é afectado tanto pela taxa de novas infecções como pela duração das infecções existentes. É importante enfatizar a natureza multifactorial da Mamite, pois muitos factores influenciam o nível de infecção como: a vaca, o ambiente, os microorganismos, as práticas de maneio e a acção do Homem.
As medidas de controlo são conhecidas desde a década de 60-70 e podem ser aplicadas de forma efectiva tanto em rebanhos pequenos ou grandes, rebanhos confinados ou a pasto. Este conjunto de medidas é conhecido como Programa dos 6 Pontos:
Adequado maneio de ordenha: o princípio básico de uma ordenha eficiente é ordenhar tetos limpos e secos, assegurando assim a obtenção de leite de alta qualidade e redução da incidência de Mamite.
Funcionamento adequado do equipamento de ordenha: a ordenha deve ser realizada de forma a minimizar lesões nos tetos e reduzir a transferência de bactérias de um animal para outro. Portanto, o equipamento de ordenha deve ser dimensionado de acordo com padrões internacionais e deve ser verificado quanto ao seu funcionamento, por técnicos especializados, a cada 6 meses.
Tratamento de todos os quartos na secagem: (tratamento de animal seco) a secagem representa e melhor momento para tratamento de casos de Mastite sub-clínica existentes no rebanho, devido a alta eficácia da antibioticoterapia neste período. Este sucesso deve-se à maior concentração dos medicamentos para fêmea seca e devido ao maior tempo de permanência do antibiótico na glândula mamária. Esta é uma importante medida para a redução da duração das infecções existentes e actua na prevenção de novas infecções.
Tratamento imediato de todos os casos clínicos: esta medida envolve a detecção precoce dos casos clínicos e início do tratamento intra-mamário em bisnagas individuais. Esquemas de tratamento dos casos clínicos devem ser realizados de acordo com a recomendação do médico veterinário. Deve-se observar o tempo de descarte do leite de todos os quartos durante e após o fim do tratamento.
Descarte dos animais com casos crónicos: fêmeas que não respondem à terapia devem ser consideradas para o descarte, pois a sua presença no rebanho implica o risco de novas infecções para as fêmeas sadias.
Proporcionar ambiente limpo e confortável na área de permanência dos animais: esta medida visa diminuir os riscos de transmissão de microrganismos do ambiente para o animal durante o período entre as ordenhas.
Deve ser ressaltado, o papel importante da nutrição sobre a saúde da glândula mamária, principalmente de micro-nutrientes entre eles o Selénio, Vitamina E e Cobre. Pesquisas recentes indicam que deficiências de Vitamina E e Selênio resultam em aumento da incidência de Mamite. Desta forma, um adequado fornecimento deste nutrientes é fundamental para aumentarmos a capacidade de resposta imune da fêmea.
Outra estratégia que pode ser associada ao Programa dos 6 Pontos como ferramenta auxiliar é a vacinação. São conhecidos actualmente dois tipos de vacinas contra a Mamite que comprovadamente apresentam efeitos positivos no controlo da Mamite.
Ambas, as vacinas, têm sido comprovadamente eficazes na diminuição da severidade dos casos clínicos e aumento da taxa de cura espontânea, apresentando boa relação custo/benefício.
Borrego, Joaquim Domingos; 1985; “Manual da
produção Ovina – 1ª parte”; Publicações Ciência e Vida.
http://www.alentejodigital.pt/aacampobranco/MAMITE.htm
http://www.mgar.vet.br/guiaonline/aspMamaria.asp
http://www.fmvz.unesp.br/ovinos/mastiteov.htm
http://www.mastite.com.br/artigo08.htm
http://www.mastite.com.br/mastite.htm
http://www.mastite.com.br/prevencao.htm